Guruga

“muitas pessoas falam para mim que esporte da vela é esporte de elite, e eu discordo plenamente disso” (16:26)

João: Senta aí.
Guruga: Está gravando? Como é teu nome?
Alexandra: Alexandra.
Guruga: Você é ghost writer?
Alexandra: Não, ele que está escrevendo, eu sou coach.
João: Ele foi meu coach também. [risos]

(Gravado no celular)

Guruga: Sou coach. Alexandra, só para você entender hoje o que a gente está fazendo, muitas pessoas falam para mim que esporte da vela é esporte de elite, e eu discordo plenamente disso, porque eu acho que o que é elitizado é o acesso ao mar. E na época que eu dava aula de vela, aí eu estou voltando para os meus 18 anos, eu fazia um extrazinho trabalhando como professor da escolinha, e tive a felicidade de pegar essa figura aqui. Mas naquela época eu já tinha esse entendimento de que você tem que fazer a iniciação, e a idade que se iniciava naquela época, com 8 anos, acho que era mais ou menos a idade que o João tinha, sete, oito anos, é uma boa idade para você começar a velejar. Só que nem todo mundo… O barco de iniciação que tradicionalmente, desde os anos 70, que a gente trabalha é o Optimist, e ele é um barco, um equipamento que eu considero um equipamento de alto rendimento, ele é um equipamento de escola muito bom, porque é um barco estável. Mas ele tem uma característica que é a solidão, ele é muito solitário, porque a criança fica sozinha no barco. Eu acho que nessa faixa etária… Hoje, para você ter uma ideia, quando eu fui professor agora da escola de 2010, eu consegui introduzir a iniciação náutica a partir dos três anos de idade. Não que eu quisesse que a pessoa fosse velejador, mas que a gente desenvolvesse a mentalidade marítima. Naquela época que eu dava aula para ele, eu já tinha um feeling dentro de mim que dizia o seguinte, cara, não é todo mundo que nasceu para correr regata. E esse cara aqui dizia o seguinte: “Guruga, eu quero curtir”. “João, pego um [través], vai para lá, curte quanto você quiser”. Porque na verdade, a razão do professor de vela era ensinar o cara a correr regata. Era assim. E esse cara, eu olhava no olhinho dele, “Guruga, quero curtir, quero ir para ali”. Já teu irmão era diferente. Mas esse cara… Eu me lembro que eu te acompanhei você várias vezes na canoa, no [bote]*, não tinha, nem sempre. Eu adorava remar naquela época, eu tinha físico de atleta, né? Então eu mandava esse cara ir pra lá, ir pra cá. Realmente, aquilo foi um diferencial porque você via muitos pais obrigando a criança “porque eu quero que ele seja velejador”, quer dizer, o pai quer se realizar com o filho. E esse cara não, esse cara tinha o perfil… Claro que eu acho que o João gosta de regata, não vou dizer que ele não goste de regata, não é isso; é que é naquele momento, cada criança tem o seu momento certo de florescimento. Hoje eu montei um negócio de náutica, montei academia náutica que é um trabalho mais ou menos o que eu fiz a vida inteira. Eu sou coach, acompanhei os garotos agora no Classe 70, em alto rendimento, mas eu estou fazendo hoje um trabalho de inserção das pessoas dentro da mentalidade marítima sem o paradigma do clube, quebrando esse equipamento que o clube é de limitação, de elitização do acesso ao mar do esporte. Hoje na Baía de Guanabara você tem poucos acessos públicos. Um exemplo que eu acho que é uma coisa que está… a força das pessoas querendo ir para o mar, são os clubes de canoas nas praias, aquilo ali é proibido, mas a prefeitura faz vista grossa porquê? Porque não tem como. Ela não fez o dever de casa, de criar os equipamentos. A marina da Gloria não cumpre essa demanda de acesso ao mar público, ela é extremamente elitizada, e agora com a BR Marina, vai ser mais elitizado ainda, então vai ser uma coisa pública para atender os ricos. E o esporte da vela, não é um esporte de rico, é um esporte de pessoas que tem poder aquisitivo, como a classe C e D hoje tem poder aquisitivo para poder comprar um carro. Antigamente a gente falava, só tem carro bacana, hoje em dia todo mundo tem carro, e é um problema no Rio de Janeiro que não tem onde parar tamanha quantidade de carro. Esse problema bom, no barco, a gente ainda não tem.
Alexandra: Você está fazendo um planejamento para a cidade sobre isso? Não conversa com ninguém?
Guruga: Não… O que eu estou tentando fazer é… A gente saiu agora em duas matérias, a gente saiu no Dia do Papai na Revista de Domingo e a gente saiu nesse último Zona Sul uma matéria de quatro páginas sobre o esporte da vela na Baía de Guanabara, e o fomento sobre essa questão do acesso ao mar, dessa questão da mentalidade marítima. E o João, para mim, é um cara que é típico um velejador. O que a gente precisa é pessoas como o João, um cara que goste do mar, que velejou de prancha, que foi para Bali, que tem essa vivência e que tem barco por uma contingência, mas o João, quer dizer, hoje em dia quem tem barco é o teu pai, não é? Você rem barco?
João: Eu tenho barco de caça submarina, o Zodiac.
Guruga: Ele tem uma felicidade do pai dele ter barco, porque realmente um barco é um custo muito caro. Quando você tem um barco do tamanho do barco do pai dele, um Catamarã de 40 pés, custa dinheiro, sem dúvida nenhuma é caro, isso é caro. Agora, uma escola de vela é uma coisa que você pula essas etapas, a pessoa pode gostar do esporte sem precisar ter barco, sem precisar ser sócio de clube, é isso mais ou menos que a gente tem feito esse trabalho. O João é um querido, é uma pessoa que eu tenho uma empatia muito grande por ele, desde pequeno. A gente se vê muito pouco, mas a gente diz que vai se ver mais… [risos]
Alexandra: Fala um pouco da trajetória dele, como o livro é sobre o ataque do tubarão também.
Guruga: Olha, eu fiquei muito assustado naquela época quando eu soube, porque a primeira notícia que veio, foi que… eu pensei que o João ia morrer, cara. Depois encontrei com ele, ele me contou: “não, foi um susto, um grande susto, mas acho que o Tubarão também ficou assustado”. Lembro que você falou alguma coisa disso. [risos] “O Tubarão ficou tão assustado quanto eu, cara. Nem eu nem ele esperávamos que a gente ia se encontrar”. Agora, é um susto e é um perigo, porque é aquele negócio de cachorro, o cachorro sai mordendo. E eu acho que o tubarão é um cachorro do mar, ele morde para comer e morde também para se defender, então a gente ficou muito preocupado com o João na época. Você chegou a ser machucado por ele?
João: Foi, mordeu.
Guruga: Mas não arrancou pedaço.
João: Não, mordeu e soltou.
Guruga: Cachorrada. Graças a Deus ele não estava com fome.
Alexandra: Você tem diferença com tubarão também?
Guruga: Eu tenho medo de… eu morro de medo de tubarão, porque eu acho que é uma lenda o tubarão. Eu digo uma coisa, uma coisa é você estar na tona da água, eu tenho muito medo de nadar na tona da água, apesar de ser um bom nadador, eu não sou um… mas eu nado bem, minha mulher diz que eu nado bonito, então eu nado bem, não tenho problemas, se quiser me mandar nadar… Agora, eu tenho medo de nadar na tona do mar, por que? Porque eu acho que aquela história da foca da África do Sul, quando você está na tona você é mercadoria. Quando eu fui diretor, eu fiz curso de mergulho, e o cenário muda completamente. Eu não tenho medo quando eu estou equipado dentro da água, o tubarão pode vir que eu enfrento o cara. Claro que eu não estou falando do tubarão branco que o bicho é sete metros de comprimento. Mas os peixinhos que eu tenho com medo quando eu nado, eu não tenho medo quando estou debaixo da água, porque você está vendo o teu horizonte ali. Eu mergulhei muitas vezes aqui fora, e não tenho medo de mergulhar. Mas me bota para nadar eu me sinto uma isca ambulante. Então eu tenho medo. A experiência que eu tenho com tubarão é velejando aqui, mas velejando você está muito bem protegido. O tubarão ataca só nas situações em que você realmente se torna um alimento para ele, uma possibilidade de alimento para ele. Se ele está com fome, ele te ataca, se não está com fome, não ataca. Todas as vezes que a gente cruzou com peixe grande, com tubarão ou com baleia… por exemplo, tive uma… Atlântica Boa Vista aqui fora, uma eliminatória de Olimpíada, cara, a gente cruzou com as baleias brancas… se eu soubesse o que eu sei hoje, eu teria mergulhado e ter abraçado aquele bicho lindo. Mas você olha, ela vem, olha para você, superlento, devia ter entrado na água com calma, devia ter ido, abraçado ela, pô, é um bicho lindo.
João: Agora teve baleia naquele evento pré… sem ser esse agora que teve da Olimpíada, o anterior, entrou uma água azul, me disseram que entrou uma baleia dentro da Baía de Guanabara, caraca.
Guruga: Falando da Baía de Guanabara que é o nosso ambiente aqui, Alexandra, com certeza eu te digo, a Baía de Guanabara precisa desse momento político que a Olimpíada está criando para a gente salvar a baía. Houve uma situação muito engraçada, duas, porque esse meu trabalho está me botando mais dentro da água; uma eu fui de técnico dos garotos do [4-70]* e estou junto com a equipe americana treinando, fazendo o coaching deles, e de repente sai um boto pulando que nem golfinho de Miami, cara. [risos]. Eu falei, it’s a kind of dolphin. Está vendo, a baía não está morta, está viva. E outro dia passeando com um grupo de clientes aqui dentro da Baía de Guanabara, final de tarde, a coisa mais linda, os golfinhos pulando de novo, os botos pulando. Então eu acho que a Baía de Guanabara, eu acredito nisso, eu acho que se a gente parar de sujar a baía, parar literalmente, rapidinho ela limpa, em dez anos, isso dito por um biólogo, em dez anos a vida volta toda, volta a baleia, volta as arraias mantas, porque eu era pequeno e via arraia manta pulando dentro da Baía de Guanabara. Então isso acho que são cenários que a gente que é velejador, que ama o mar, que gosta de mergulhar, que gosta da natureza, e é um dos grandes pilares que o velejador carrega consigo, muito mais do que o lancheiro, o lancheiro normalmente tem um perfil normalmente tem mais assim de um cara poluidor, e o velejador tem um perfil mais despoluidor. Não que não tenha lancheiros conscientes e não tenha velejadores que poluem, não estou dizendo isso. Mas o normal é, um cara que usa o vento, usa um combustível limpo, normalmente ele é um cara mais preocupado com o meio ambiente. Então o João é um cara com esse perfil, é um cara supernaturalista, é um cara que preza pela natureza, gosta de velejar, que eu sei que ama velejar.
João: Eu tenho velejado pra caramba, lá em Búzios. Vim para a baía, tenho feito altas aventuras.
Guruga: Eu preciso me aproximar mais desse cara porque eu sei que eu vou… mas é que a vida é tão… eu estou com três filhos.
João: Eu estou com dois também. Agora estou pegando catamarã sozinho… pra caramba.
Guruga: Me convida um dia para lá que eu vou.
João: Vamos cara, pego sozinho pra Ilhabela, dou a volta na Ilhabela, Saco do [Sombrinho], conhece?
Guruga: João, você tem meu telefone.
João: Não tenho não, o meu caiu no mar, perdi todos os contatos.
Guruga: Vou te mandar.
João: Deixa eu te falar uma coisa. Espera aí que eu me perdi aqui. Cara, o que eu vou botar no livro…
Guruga: Você bota o que você quiser.
João: Eu vou botar, vou botar uma parada tua, já botei.
Guruga: Não estou acreditando que eu não tenho teu contato.
João: João Pedro Lemos, você não tem não.
Guruga: Jurava…
João: Você já teve. Eu sei que não tinha porque o meu é novo, caiu no mar. Depois vou te ligar, mas estamos aqui…
Guruga: O que você precisar tem meu telefone aí agora. Eu diria que, cara, o meu contato com o João, o principal contato com ele foi durante a escola de vela, foram seis meses…
João: Não, mas depois, cara, você foi treinador meu e do Chico, tu não lembra dessa parada? Você ficava com um botinho que tinha um PVC preso assim…
Guruga: Não, já era outro, não era mais eu.
João: Era você, cara. Tu não foi treinador meu e do Chico, foi a Cintia, foi você e foi um garoto Ricardo, irmão do Plínio.
Guruga: Não, não, já não era mais eu. Eu fui teu professor na escola.
João: Escolhinha eu lembro, foi eu, você, Fado, Santinha…
Guruga: Eu fui, mas veja, minha vida… quantos anos você tem João?
João: 40. Deixa eu te falar uma coisa. Você foi e você me fez, meu irmão, pegar a extensão do Optimist e fazer um laçadinho assim para ele não escorregar na mão de cabo inteiro, me lembro, cara, me lembro de você naqueles barquinhos que você usava na escolinha, lembra aqueles barquinhos para fazer prática de regata… eu lembro. Mas é assim mesmo. Cada um… cara, com o livro várias pessoas estão participando que eu não imaginava. Tem gente que estava no ataque comigo que pede para escrever, tem amigo meu de infância, brother, está escrevendo parada que nem aconteceu. E o cara fala, estava contigo nesse dia… Então assim, cada um tem uma visão. Escrever é a maior viagem. Se um dia você for escrever sobre vela, alguma coisa da tua vida, tu vai ver, escrever é a maior viagem. E vocês são vizinhos, né?
Guruga: Ah, você mora na Urca?
Alexandra: Sim.
Guruga: Caramba, bem que eu estou te reconhecendo!
Alexandra: Eu também falei que pensei que conhecia você.
Guruga: Você me conhece, eu sou vice-presidente da associação.
João: Eu ia falar…
Alexandra: Por isso! Sabia que eu conhecia você! Que engraçado. Somos vizinhos.
João: Amante da Urca, a vida inteira.
Guruga: É, eu nasci nesse bairro, me criei, e a partir de 2008 eu estava muito indignado com as moças que estavam administrando. Falei, não é possível, isso tem que mudar. Aí que eu comecei a trabalhar e começar um movimento… hoje, de alguma maneira, estou fazendo um trabalho maravilhoso.
Alexandra: Eu sei.
Guruga: Presidente da associação é… Alexandra, vamos ficar mais junto, eu moro do teu lado. O que você precisar… passa o telefone para ela.
João: Passo, passo.
Alexandra: Perfeito, obrigada.
Guruga: Espero que seu livro seja um sucesso, e vou dizer mais, nós vamos lançar o teu livro, eu faço festa, eu faço buffet, eu vou fazer a tua festa.
João: Fechado.
Alexandra: Perfeito.
Guruga: Estou com um espaço show.
Alexandra: Obrigada, viu?
Guruga: Quando vai ser o lançamento do livro?
João: Ainda estamos decidindo…
Guruga: Estou dentro.