Regina

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Professora e diretora da escola pública Minas Gerais, na Urca, a vida da Regina começou no interior de Minas, depois mergulhou no Rio e andou pelo mundo inteiro. Ela se construiu uma vida e formou 40.000 crianças ao longo da sua carreira. Acha que ela quer se aposentar? Não, ela agora procura algo para dar um novo sentido à sua vida e deixar a sua marca no mundo. Regina é uma pessoa exemplar, uma tradutora de eurecas. Faz muito bem escutá-la!

Gomes da caverna

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Queria muito conhecer o Gomes da caverna, ermita do Pão de Açucar, e encontrei um homem sensívelsimpático, falador. Ele não mora mais na caverna, onde durante 32 anos resgatava pessoas perdidas no mato e cuidou de 24 cachorros de uma vez, mas agora é morador de rua. Ele me mostra o certo quando tiro uma formiguinha do obro dele, “Esse é meu vizinho”.
Não tem mais cachorro desde o último, Papillon (“igual ao livro francês”), que faleceu aos 18 anos. Leitor toda a vida, e agora sem celular, ele é cheio de aforismos e verdades, e diz: “o mar nunca foi limpo, sempre foi a lixeira da humanidade”.

Guruga

Guru de vela, da arte culinária e de yoga, entrevistamos Guruga no Iate, onde ele é professor de vela e de iniciação marítima para jovens marinheiros. Ele também é  um dos diretores do Instituto Rumo ao Mar http://rumoaomar.org.br

Ricardo Gomes

The saint of the Bay knows her from below. He dives at night, alone, breaking the golden rule (“never dive alone”). At 12 meters depth, at the feet of the Sugar Loaf mountain, he had an eureka. He turned off his lamp and was suddenly in complete darkness; he couldn’t see his own hand before his face. That night he felt he was no longer a drop in the ocean, but had the force of the ocean within him. A spark among millions and millions that have migrated through the universe for millions and millions of years. In that moment he felt time change. There was now a before and an after.

Before he had a team to record weddings for a million bucks. He guaranteed his employees, at these parties for white people, that they would also eat like kings in the Copacabana Palace. He bought an apartment, and earned like a judge. But this was little. That night he learned that, with the utmost humility, he was more ambitious than ever. The man who practices sainthood in the ocean, wants to leave the Bay clean for his daughter, so that one day she might look at him and say, Daddy, you’re my hero.

Ricardo Gomes

O santo da Baía conhece ela por baixo. Mergulha de noite, só, quebrando a regra de ouro do mergulho (“não mergulharás sozinho”). A 12 metros de profundidade, aos pés do Pão de Açúcar, teve uma eureca. Desligou a luz e ficou na mais completa escuridão; não se via as mãos. Ali, naquela noite, se sentiu parte do oceano, uma centelha entre milhões e milhões que migram pelo universo milhares e milhares de anos. Naquele momento, o tempo mudou. Antes, e depois.

Antes ele tinha uma equipe para gravar casamentos de um milhão de reais. Se assegurava que os seus homens, em festa de brancos, comeram como reis no Copacabana Palace. Comprou apartamento, ganhava com o um desembargador. Mais isso era muito pouco. Aquela noite compreendeu que, no máximo da humildade, ele era mais ambicioso que nunca. O homem que pratica santidade no oceano quer deixar uma Baía limpa para sua filha, e que um dia ela olhe para ele e diga: você, papai, teve coragem.

Iracema

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Iracema é a guardiã no portão do Monumento Natural do Pão de Açúcar para quem visita a pé. Os cabelos soltos e brancos chamam a atenção desta mulher de 73 anos na pista Claudio Coutinho, onde trabalha como voluntária três dias por semana dando informações para quem vem visitar a natureza.

Falamos com Iracema no dia 9 dezembro de 2017, no Dia do Voluntariado, num evento no qual nós participamos e onde ela foi homenageada pelo seu serviço ao meio ambiente. Ela também é uma voz ativa no conselho da unidade de conservação e hoje, aposentada como psicóloga e professora, estuda biologia na UniRio.

Ouça a sua eureca!

Carlos Henrique Siqueira

Carlos Henrique Siqueira tem uma namorada eterna: a ponte Rio-Niterói, onde trabalha
como engenheiro desde 1972. A sua grande paixão é cuidar da rainha das pontes brasileiras e fazer com que seja uma dama longeva num mundo com quase 3 milhões de pontes. As histórias que ele tem para contar ninguém imagina. Na Urca, que bem parece uma cidade de interior e onde ele mora desde que chegou da Paraíba, é conhecido como Carlos Henrique da Ponte.

As pontes envelhecem como as pessoas?
“Todo mundo quer viver muito, mas não quer envelhecer. Ainda não se descobriu, eu gostaria de descobrir as águas da fonte de Ponce de León, que você bebia e rejuvenecia. O dia que eu achar isso, pode ter certeza que eu vou tomar e dividir meu tempo entre a Urca e João Pessoa e a ponte Rio-Niterói.”

Como era a Baía de Guanabara?
“Antigamente, quando eu comecei a fazer vistoria da ponte Rio-Niterói, em 1979, a gente ia
num barco aberto, devagarzinho, às vezes, piraúna, desse tamanho, pulava e caia dentro do barco, não precisava nem pescar. Os peixes vinham, vupt, e caiam dentro do barco. Também tinham mergulhadores que trabalhavam nas fundações da ponte. Os caras mergulhavam, as vezes sem nada, demoravam um minuto, dois, daqui a pouco ele subia com um polvo todo enrolado no corpo dele, chegava no barco, abria a mão, ‘tira esse polvo daqui’, as ventosas do polvo, polvo enorme.”

Imagina uma vida depois da ponte?
“O meu projeto de vida, no apogeu da minha idade, não posso precisar, mas no ocaso da minha vida, eu quero morar numa cidade do interior da Paraíba, não em João Pessoa que é uma capital grande para mim, quero morar numa cidade do interior pequena. Vou ter minha casa, minha televisão, lógico, minha net, computador, isso não pode faltar, e vou colocar uma placa na porta: “Reforço escolar gratuito, crianças até 12 anos”. Ninguém precisa me pagar nada, o pagamento é aqueles meninos serem os melhores da turma. Vou ensinar de graça, esse é o meu projeto de vida.”

Pellé

Quando conhecemos o Giuseppe Pellegrini, já sabíamos de sua reputação como montanhista e engenheiro emérito do Bondinho, que há anos projetou a adoção da pista Claudio Coutinho pela Companhia Aérea do Pão de Açúcar. Ele é um homem elegante e vigoroso, de camisa jeans, um cowboy das montanhas, e nos recebeu na sala de conferências dos engenheiros no Morro da Urca. O que mais nos surpreendeu desse Renaissance Man, além de sermos vizinhos de rua na Urca, foi a sua invenção de um sistema original de transporte de água e de esgoto para os quase 5.000 visitantes diários ao Pão de Açucar.

E a história de vida do Pellegrini? Uma conversa simpática sobre os seus quatro casamentos, uma viagem de combi até o Alaska nos anos 60, um homem que faz as compras na feira da Urca nos domingos porque “a cozinha é uma das áreas mais importantes da minha atuação”, onde tem uma coleção de mais de 40 facas. Pellegrini nasceu em Bagni di Lucca, na Itália, e chegou orfão no Brasil em 1947, aos 9 anos.

Quando você fala em economia de guerra para poupar e fazer aquela viagem para o Alaska, você passou a infância na guerra?
“É, eu nasci em 38, a guerra começou em 39. . . Pois é, é ali, nasci ali e passei todo o período da guerra. Então vivi a guerra e a pós-guerra que às vezes é até pior que a guerra, dependendo do período, fome, tal. A nossa região ali foi meio que salva pelas castanhas, essas castanhas de Natal, tinha muita produção de castanha, bosque de castanha. Havia até um conceito, que a castanha que caia na trilha, embora tivesse proprietário, você apanhava; mas independentemente disso, era uma coisa relativamente barata, muito energética, inclusive você comia castanha natural, castanha cozida ou fazia farinha de castanha, waffle de farinha de castanha, fazia torta de farinha de castanha, era farinha de castanha até dizer chega”.

E sobre a Urca? “Estou morando aqui já faz um tempo considerável, perto de 20 anos talvez, não só pela facilidade de onde trabalho, mas independentemente disso, é um local muito tranquilo, dentro do Rio de Janeiro violento que é hoje, é uma ilha privilegiada, vamos dizer assim. O meu apartamento não é grande, não tem nem elevador, tem 60m², mas para mim . . . E a área de criação, a gente chama de escritório avançado, local de criação. Nós usamos dois lugares, é o bar Belmonte, e também esse que a gente chama bar da Cabine, que é o Urca Grill, aquele na frente da cabine . . .”

E a relação do Pellegrini com a Baía de Guanabara? “É amigável no sentido visual, e eu acho uma pena a poluição que ela está, é uma grande pena. Na realidade, meu esporte não é muito aquático, sempre fui de montanha, então eu sempre fui para montanha, montanha, na Urca a sorte que tem uma do lado . . . o Pão de Açúcar já escalei mais de 3.500 vezes, eu trabalhando aqui, todo dia, agora não mais, mas durante muitos anos era todo dia, pelo menos uma vez, eu cheguei a escalar quatro vezes num dia!”

Ana Deveare Smith


Depois de fazer as perguntas, eu ouviria como nunca ouvira antes até que as pessoas começassem a cantar para mim. O canto era o momento em que eles realmente estavam conversando.

― Ana Deveare Smith, Talk to Me: Listening Between the Lines