Eduardo – 11:14

Eduardo: Eu frequentava a praia da Urca quando era criança. Em 92 quando teve a Eco 92 é que veio esse dinheiro para despoluir a Baía de Guanabara e não foi feito nada.

gravado com celular

Alexandra: Não foi feito nada, exatamente. Como era quando você era criança?
Eduardo: Limpinha, a Urca era uma beleza, parecia uma piscina.
Alexandra: Dava para ver o fundo?
Eduardo: Limpíssima, limpíssima, limpíssima.
Alexandra: Você lembra… tinha um lugar que dava para pular, tinha alguma coisa assim?
Eduardo: Não, não. Sempre foi aquilo que você está vendo ali, mas sempre muito limpa. Quer dizer, na praia não mudou nada ali, as pedras, mas muito limpa. Dava gosto vir para cá. Chegava aqui só tinha família mesmo, mais criança, era muita criança, por ser uma praia ali naquele recuo, não tem onda, não tem correnteza, é uma praia muito boa, fora que era limpíssima, era uma beleza.
Alexandra: Você morava onde?
Eduardo: No Rio Comprido.
Alexandra: E o Rio Comprido era limpo também naquela época? Debaixo do elevado era limpo?
Eduardo: Sim…
Alexandra: Paulo de Fronten, era limpo?
Eduardo: Sim, a água que vinha daqueles morros ali era água limpinha. Hoje, passa ali é um mau cheiro danado.
Alexandra: Mas também não tinha elevado naquela época?
Eduardo: Não, não me lembro o elevado que ano foi que fizeram, 70 e alguma coisa. Mas mesmo depois do elevado, nos primeiros anos, aind a era limpo, hoje começou… quando começaram a fazer… a população começou a fazer aquelas favelas, aquelas encostas, aí acabou. Acabou o cheiro bom, acabou a limpeza.
Alexandra: Será que foi isso?
Eduardo: Claro.
Alexandra: Não sei. Porque eu penso…
Eduardo: O esgoto vai para ali, tem esgoto que vai para ali…
Alexandra: Mas você sabe que o nosso esgoto na Urca vai para a Baía, vai direto, todo esgoto da cidade entra na água, não é só das favelas.
Eduardo: Não, mas eu não estou culpando favelas, é o que acontece, infelizmente.
Alexandra: Por isso que eu estou perguntando. Lembra do cheiro da Lagoa nos anos 70, era horroroso. Já tinha muita poluição. Eu tento pensar o que foi exatamente, como a gente pode mudar nossa consciência para mudar isso. Porque é uma questão de corresponsabilidade, eu acho.
Eduardo: Muita educação. É o começo.
Alexandra: Por isso que eu perguntei se eu poderia gravar você, porque eu acho que se a gente começa a contar essas histórias as lembranças de uma baía limpa, a gente vai conscientizar que não foi tanto tempo atrás, e que a gente pode fazer alguma coisa, e que são mudanças mínimas.
Eduardo: Começa em casa também.
Alexandra: Começa em casa, absolutamente.
Eduardo: Eu estou passeando com meu filho na rua, compro um sorvete para mim e um para ele, jogo o para no chão, para ele é uma coisa normal jogar um papel no chão, ele vai fazer a mesma coisa.
Alexandra: Por que? Ah, sim, se você fizer isso, ele vai fazer a mesma coisa.
Eduardo: É criança, vê um adulto fazendo isso, para ele normal, é o certo, então ele vai fazer também.
Alexandra: Mas eles não ensinam isso na escola?
Eduardo: O pai e mãe… o problema é que aqui é que os pais querem que a criança aprenda tudo no colégio, eles não querem ensinar a parte deles. Acho que a educação é a base, com certeza tem que começar por aí. Eu vi a av. Rio Branco e outras ruas, o pessoal da Comlurb limpando, as vezes, oito, dez garis varrendo a rua, você olhava assim, tudo limpinho, dali uma hora você olha para trás estava cheio de papel na rua, sabe?
Alexandra: Mas a Comlurb funciona. É uma empresa que funciona.
Eduardo: O povo aqui é muito mal-educado. Desculpe, [?]
Alexandra: é lá no final, no Júlio de Castilho. Eduardo obrigada pela lembrança, porque, realmente, me faz bem ouvir alguma história sobre a Baía de Guanabara limpa. Sabe que falaram essa semana que tem uma baleia de volta na baía, faz muito tempo, é um milagre, né? E eu na semana passada, vi os golfinhos, pela primeira vez, pulando.
Eduardo: Eu pesquei muito ali, no Forte de Copacabana, pesquei muito. A gente via golfinho, arraia, cardumes enormes de arraias, uma coisa maravilhosa, isso nos 80, 85 a 95, mais ou menos, depois começou a sumir. Aqueles peixes de ?, peixe espada que eles pegavam em escudo, sardinha, xereré, simplesmente foi sumindo. Poluição e pesca predatória.
Alexandra: É. Hoje em dia… eu remava, saia remando, você via tartarugas flutuando também, mas não…
Eduardo: Em frente aqui ao Forte, do outro lado ali do Bombeiro, a gente via tartaruga ali, de vez em quando aparecia uma, duas. A gente tem duas maneiras de aprender, pelo amor ou pela dor, acho que o brasileiro quer aprender pela dor.
Alexandra: e você faz alguma coisa de cuidado para o meio ambiente, para o seu bairro?
Eduardo: Eu tento fazer a minha parte, sim, mas está difícil. Porque o bairro, eu continuo morando no Rio Comprido…
Alexandra: Eu amo o Rio Comprido.
Eduardo: Infelizmente a violência se instalou no Rio de Janeiro, o Rio Comprido é um bairro bom, para mim é bom porque é um bairro centrado, num instantinho você está no Galeão, no Santos Dumont, está na Rodoviária, na cidade, mas em compensação o bairro está cercado de comunidade. Comunidade, infelizmente, tem violência. Então está difícil. Nossa situação está muito difícil. Aqui você vê, se você anda na Tijuca uma hora dessa, você não vê nada na rua, você vê um taxi perdido, ou um carro particular trabalhando, um cara da Uber, está vazia, a rua está deserta.
Alexandra: E já faz tempo que está assim?
Eduardo: Já. Olha, há dez anos atrás, exatos dez anos atrás, eu não precisava nem ser da Tijuca para ganhar meu dinheirinho tranquilo. Hoje, eu não vou nem na Tijuca, só se bancar no aplicativo, se tiver passando por ali [?]. Tijuca acabou o cinema, o pessoal já sai do shopping ali, pega o taxi ali na porta e vai embora, ninguém fica mais andando na rua. Vai embora. Por causa da violência, muito morador de rua, montes de menores assaltando. Está bem difícil. A rua que você ia ficar…
Alexandra: Júlio de Castilho, desculpa, a gente está falando. Falando de violência, como está tarde, vou pedir para você subir na calçada, me deixar em frente a porta. Eu tenho que acreditar que a gente consegue fazer alguma mudança, mesmo pequena.
Eduardo: Eu também, eu também quero acreditar. Mas infelizmente não é isso o que a gente está vendo. O povo tem muito que aprender ainda. Aprender a cobrar os seus direitos, a cobrar o que deve ser cobrado, mas eu acho isso sim.
Alexandra: Olha, em Los Angeles onde eu já morei, tem um rio enorme que me lembra o Rio Comprido; colocaram concreto nos anos 60. Esse rio sai muito nos filmes antigos, e parece uma coisa da Ásia, tem bambu crescendo… mas era sujo, sujo, sujo, um monte de moradores se juntaram e decidiram que iam limpar. E eles limparam, agora tem cavalos que andam do lado, bicicletas, pessoas usam a trilha, tem comida crescendo, mas são os moradores que fizeram isso.
Eduardo: Mas você vê [?] a gente sai daqui, a gente ia [?] Tijuca, um lugar [?] maravilhoso, belíssimo, só que a gente não pode andar.
Alexandra: É, requer muito trabalho.
Eduardo: Há pouco tempo atrás um grupo de turistas que foi andar lá e foram assaltados, perderam máquina e perderam tudo. O Rio de Janeiro ficava muito bem só com turismo, mais nada, com turismo a gente ia se manter muito bem, mas infelizmente…
Alexandra: Os turistas não vêm. Meus amigos de fora não vêm mesmo.
Eduardo: [?]
Alexandra: Eduardo, obrigada pela conversa. Posso usar sua história?
Eduardo: Pode!
Alexandra: Obrigada.
Fim.
* o mais próximo do que foi possível ouvir.